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Cronicamente Fabulosa

Tenho fibromialgia, mas também sou fabulosa e esta é a grande aventura que é a minha vida.

Cronicamente Fabulosa

Tenho fibromialgia, mas também sou fabulosa e esta é a grande aventura que é a minha vida.

Junta Médica.

por AF, em 01.03.19

Se há coisa neste mundo que me assusta mais do que palhaços são as palavras "junta médica". É só falarem-me disso que os cabelos na minha nuca se eriçam todos e o meu estômago começa às voltas. 

Imaginem a minha cara quando há cerca de duas semanas descobri que hoje à tarde me esperava a tão famosa dita consulta da junta médica onde um bando de médicos que nunca me viu na vida iria decidir se eu continuava suficientemente doente para estar de baixa ou se estava óptima, fantástica, maravilhosa e pronta para voltar ao activo.

Não me interpretem mal. Eu quero voltar a trabalhar. Quero construir uma vida e uma carreira que me possa tornar uma verdadeira adulta. Ser alguém. Viver e não existir só.

Mas eu ainda não estou bem. Ainda há muita coisa trancada dentro da minha cabeça que tem que ser arrancada cá para fora, analisada e resolvida. Estou no início desta pequena aventura mas já descobri que existe muito para remexer. Estou a tentar, disso tenho a certeza.

Acontece que a junta médica não é propriamente conhecida por ter as pessoas mais simpáticas do mundo a trabalhar lá. Normalmente, entra-se na sala e deparamo-nos com médicos mal encarados que nos querem mandar trabalhar estejamos a morrer ou não. Por isso, não é uma surpresa quando ouvimos pessoas verdadeiramente doentes saírem de lá irritadas, deprimidas, frustradas e revoltadas porque num espaço tempo de minuto e meio alguém que nunca os conhecera anteriormente decidiu que estavam óptimos para trabalhar, só porque sim.

Eu sei que é tudo por causa de uma minoria (ou não) de pessoas que acham que podem enganar a segurança social e viver à custa de uma entidade que todos pagamos apenas porque não lhes apetece trabalhar. Mas temos que pensar nos outros: aqueles que estão mal e que precisam de ajuda. E, acima de tudo, que precisam de tempo para ter essa ajuda.

Só que hoje.... hoje foi diferente! A ansiedade estava lá, a dar cabo de mim tal como se eu tivesse acabado de comer um iogurte estragado. Continuava mal disposta, nervosa, pronta para desistir de respirar e atirar-me para o chão. Estive assim até ser chamada e entrar no consultório onde duas senhoras simpáticas estavam à minha espera. Acreditam nisto?! Simpáticas!

Nem dois minutos estive lá dentro. Fizeram-me uma ou duas perguntas básicas, leram os meus relatórios e mandaram-me embora com um papelinho que me dava autorização para continuar de baixa e consequentemente continuar o meu tratamento diário.

Porque acreditem ou não, é importante que continue a fazer o que tenho estado a fazer nestes últimos dois meses para que um dia possa finalmente dizer que estou bem. Vai demorar, eu sei bem que vai demorar, mas o importante é não desistir.

E sei que isto de sermos apenas números e de termos pessoas desconhecidas a decidirem o nosso futuro com míseros minutos de "conversa" e sem olharem para nós como realmente somos, como realmente sofremos. Mas esse é um tema para outro dia.

Talvez nos próximos capítulos.

Pequenas vitórias.

por AF, em 27.11.17

Quero partilhar uma coisa convosco.

Ao fim de dois anos ontem foi a primeira vez que eu consegui trabalhar oito horas num dia. Até pode nem parecer nada de especial para a maioria de vocês mas deixem-me dizer-vos que eu cheguei a pensar que nunca mais conseguiria trabalhar um turno inteiro como uma pessoa normal.

Mas estava enganada.

Não vou negar. Ao início, quando descobri que ia cumprir as temidas oito horas, fiquei nervosa e com medo de falhar. Ainda cheguei a pensar umas quantas vezes que não era capaz e que ia quebrar com as dores ao fim de meio dia.

No entanto aquilo que aconteceu foi exactamente o contrário. Acordei cheia de sono (como sempre), com dores (como sempre!) e num misto de ânsia, nervosismo e dúvida própria. Levantei-me cedo e fiz tudo aquilo que costumo fazer quando me estou a preparar para ir trabalhar. Tomei o pequeno almoço e quando olhei para as horas faltava uma hora para entrar. Eu já estava pronta com imenso tempo para esperar. Então, para fingir ao mundo que sou super saudável e de maneira alguma sou um zombie quando acordo, decidi maquilhar-me. Enfim, coisas típicas.

Quando saí de casa sentia-me como uma guerreira pronta para a derradeira batalha pela liberdade. Chamem-me dramática mas existem certas coisas na minha vida actual que parecem mínimas para o mundo e, no entanto, para mim são monumentais. São pequenos passos, pequenas vitórias que me fazem sentir mais normal.

Comecei a trabalhar tal como acordei: extramamente cansada. Mas não deixei que isso se transparecesse no meu trabalho e tentei dar o melhor de mim como tento dar sempre. Nem sempre o melhor de mim é exactamente aquilo que os outros esperam mas eu não desisto.

A hora de almoço chegou devagar. Cheguei a casa, comi que nem um animal e ainda tive uns quantos minutos para relaxar, verificar os meus jogos e ponderar que teria de voltar. Eu nunca voltava.... que estranho que era ter ainda mais horas de trabalho pela frente!

Acontece que assim que cheguei ao trabalho esqueci-me que tinha trabalhado aquele tempo todo e foi como se começasse de novo. Não morri, não sofri e o mais importante é que não desisti.

Podem perguntar-se porque vos conto isto com tantos detalhes desnecessários. Para quê dar tanto ênfase a algo que a maioria das pessoas faz todos os dias, nem sempre com uma perna as costas, muitas vezes cansadas e frustradas, mas fazem-no sempre. Então porque raio é que eu me acho tão especial?

Porque a vida roubou-me os meus sonhos. As dores esmurraram não só o meu corpo como a minha capacidade de viver feliz e despreocupada, de sonhar com uma carreira e um futuro brilhante e, em suma, de ser normal. Mas normal? É claro que sou normal.

Só que há quase três anos atrás uma dor começou que ainda não passou. Há três anos atrás passei de ter diferentes aspirações e objectivos para pensar que se calhar estaria destinada apenas a uma vida medíocre. Há três anos atrás perdi a motivação. Se acham que isso não importa então deixem-me dizer-vos o contrário.

Nunca mais trabalhei a tempo inteiro. Raramente consegui trabalhar mais do que quatro horas seguidas e quando o fazia sentia-me péssima. As dores eram tantas que eu trabalhava e não fazia mais nada o resto do dia porque não conseguia.

Lentamente tentei mudar isso mas o medo de falhar nunca se foi embora.

Ontem, que fique marcado como 26 de Novembro de 2017, voltei a ser capaz de fazer algo que pensei nunca voltar a conseguir. Consegui trabalhar oito horas. Sabem o que é quando vocês passam muito tempo a tentar conseguir algo e falham vezes sem conta até que finalmente, quase que por milagre, acertam numa das tentativas e são vencedores?

Ontem fui uma vencedora.

E a partir de agora, serei sempre.

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