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Cronicamente Fabulosa

Tenho fibromialgia, mas também sou fabulosa e esta é a grande aventura que é a minha vida.

Cronicamente Fabulosa

Tenho fibromialgia, mas também sou fabulosa e esta é a grande aventura que é a minha vida.

Há um ano atrás.

por AF, em 18.10.19

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Há um ano atrás a minha vida era diferente.

Eu estava a trabalhar num emprego que não me fazia feliz onde a cada dia que passava sentia a energia e vontade de dar o meu melhor abandonarem-me juntamente com a minha dignidade. Há pessoas que talvez não concordem mas há um ano atrás eu estava a pôr o meu trabalho à frente de tudo o resto na minha vida.

Há um ano atrás estava cansada de pessoas. Não conseguia lidar com quem me faltasse ao respeito. Respondia e irritava-me porque estava farta de ser pisada. Estava revoltada. Fosse com clientes ou colegas eu sentia que não havia ninguém que me entendesse ali. Ou em qualquer outro lado com quaisquer outras pessoas. Há um ano atrás eu sentia-me sozinha.

Há um ano atrás eu estava magoada. Não sabia porquê mas estava frágil. Sentia-me a cair num abismo onde eu não conseguia ver o fundo e sem paraquedas às costas. Chorava e sentia um enorme sufoco a tomar conta de mim, a tirar todo o ar do meu peito e a vida de todo o meu corpo.

Há um ano atrás eu tinha dores. Hoje também tenho mas há um ano atrás eu não aceitava que pudesse ser tão nova e sofrer assim. Continuo sem aceitar totalmente mas estou mais compreensiva. Naquela altura não aguentava viver, só existir. O meu corpo estava sempre a lutar contra mim. Eu andava completamente esgotada e tão cansada de ter dores tão fortes que só me apetecia desaparecer.

Há quase um ano atrás eu tentei desaparecer.

Não vale a pena esconder. Não vale a pena pôr-me com rodeios porque faz parte da minha vida e faz parte de quem sou hoje. Se há um ano atrás não tivesse feito o que fiz, certamente não estava onde estou hoje. Há um ano atrás tentei-me suicidar.

E depois encontrei a luz.

Um hospital, um serviço, um grupo.

Há dez meses atrás eu entrei para uma família. Uma família que só existia ali, onde eu podia ser o mais verdadeira possível e falar de tudo sem medos. Onde descobri tanto sobre mim e sobre o mundo, tanto sobre a vida. Um lugar onde me encontrei, onde percebi o que eu gostava e que não gostava. Onde pus em marcha a minha própria revolução contra quem eu queria pelas razões que eu queria e ser perdoada por levar as coisas para extremos. Foi onde eu aprendi a acabar de tricotar um cachecol, a fazer uma caixa em dobragem de papel, a costurar, a fazer coisas deliciosas e acima de tudo a perdoar. A perdoar-me a mim própria, a perdoar o mundo e a perdoar o passado.

Há um ano atrás eu sentia-me perdida. Hoje sinto que me encontrei.

Hoje tive alta. Despedi-me das pessoas, percebi que já não faço parte daquela família e que posso dizer adeus mas não faz mal porque há coisas e pessoas que não são o destino, são apenas a viagem.

E apesar de saber que tenho um longo caminho pela frente e tanta coisa ainda para resolver dentro da minha cabeça - um novelo tão grande e emaranhado que eu própria não sei todos os problemas - que posso demorar uma vida inteira a chegar lá; eu sei que vale a pena.

Eu sei que eu estou aqui e que posso vencer. Posso ser eu própria porque eu tenho valor. Posso fazer as coisas que gosto e aprender novas coisas que também gosto. Posso dizer que não e posso ser assertiva sem ter que ser agressiva. Posso compreender que existe bom no mau e mau no bom. Posso aceitar que nem sempre a vida vai ser justa e que me vou magoar muitas vezes mas que é bom chorar e libertar os sentimentos para não os acumular e torná-los piores. Posso ser alguém. Posso ser feliz.

Não quer dizer que faça todas estas coisas ou que de repente esteja completamente curada e uma pessoa totalmente nova mas há um ano atrás eu não era assim.

Há um ano atrás eu não sabia quem sou e hoje sei que sou a Filipa.

E para mim isso basta.

Comer ou não comer? Eis a questão...!

por AF, em 01.09.19

 

Deixem-me admitir uma coisa.

Estou oficialmente com o maior peso que alguma vez estive na minha vida e de quem é a culpa? Minha, como é óbvio!

Nos últimos dois ou três meses desisti de quaisquer dietas e deixei as minhas emoções controlarem a minha vontade de comer. Acontece que as minhas emoções não são nada simpáticas para mim e não anseiam coisas saudáveis como uma saladinha ou beber muita água. Não, elas querem é bolos, chocolates, pudins, nuggets, pizza, um "ganda" hamburguer do McDonald's, um pacote inteiro de Oreos mergulhadas no leite.

Nada disto me faz sentir bem ou estar efectivamente. Na verdade, assim que acabo de comer sinto-me mal porque estou mal disposta e porque sinto que falhei comigo própria. Sinto-me mais deprimida e que não consigo ser responsável e dizer que não àquilo que não quero.

Aquele conforto que queremos ter quando comemos coisas destas é momentâneo e acontece única e exclusivamente enquanto as nossas papilas gostativas estão a sentir todo o açúcar ou gordura que os alimentos tenham.

Estou absolutamente convencida (porque é um facto) de que a comida é um vício tão forte quanto qualquer outro vício como drogas ou álcool. A partir do momento em que começamos a abusar não conseguimos largar por mais vontade que tenhamos.

Temos que ser radicais. Pôr um ponto final e dizer "não! eu não vou comer este delicioso bolo de bolacha que está aqui à minha espera e que vai ficar estragado se eu não lhe der caminho". E até parece uma coisa muito simples de fazer mas logo a seguir vem a Filipa número dois da minha consciência (ou o diabinho no ombro como gosto de chamar) dizer "nada disso, vamos comer e saborear este pequeno pedacinho de céu porque é tudo o que precisamos na nossa vida para sermos felizes" e o que é que acham que eu faço? Como o bolo de bolacha!

Todos os dias acordo convencida que naquele dia não vou comer nada que me faça mal. Tenho um pacote de flocos de aveia no armário e outro de leite de arroz no frigorífico. É só juntar e pôr no microondas. Eu até gosto daquilo, então porque raio é que na altura de comer me desvio para os pacotes de bolacha?

Cada vez mais pareço o monstro das bolachas. Doida por biscoitos, gorda como tudo e olhem só hoje até estou a usar uma camisola azul!

Preciso de regras alimentares na minha vida. Regras alimentares que eu siga e que respeite. Preciso de meter na cabeça que se não emagreço não vou a lado nenhum na minha vida. As dores vão piorar, vou sentir-me cada vez mais horrorosa e vou conseguir fazer menos coisas porque o peso dificulta imenso a quantidade de actividade física que eu consigo fazer e eu não quero nada disto. Tenho 25 anos bolas! Ainda vejo desenhos animados com uma tacinha de cereais na mão, preciso de resolver a situação antes de me ver velha, desgastada e sem motivação.

Amanhã é segunda-feira. Pode ser que exista um milagre qualquer na minha vida que me faça ganhar juízo. Se não fizer.... esperem encontrar-me a chorar compulsivamente porque não posso comer o frasco de nutella inteiro.

Socorro!

Passinhos de bebé.

por AF, em 29.07.19

Nos últimos meses acho que fiz jus ao "ano novo, vida nova" que não prometi a mim própria este ano. Não prometi porque honestamente não tinha a mínima esperança de que a minha vida fosse mudar ou melhorar ou qualquer coisa do género. Na verdade esperava exactamente o contrário e nesse caso o cenário era bastante mais trágico.

Mas aqui estou eu, quase oito meses depois do início de 2019 e embora não esteja completamente mudada nem tenha ultrapassado todos os meus problemas, já posso dizer que estou diferente. 

A maioria das diferenças não se vê e continuo a cair todos os dias em erros que tenho noção que devo mudar mas ao mesmo tempo eu já consigo identificá-los e saber porque é que não os devo cometer. Como já disse várias vezes isto não é fácil mas é um processo demorado e as coisas têm que ser bem feitas para não voltarem a acontecer desgraças.

Gostava de vos contar algo inspirador, a sério que gostava, só que não há milagres nem feitiços encantados que me façam ficar bem do dia para a noite.

Não vos consigo dizer o quanto quero ficar bem. O quanto quero ser uma adulta responsável e com um trabalho que me faça progredir, interesses que me inspirem e me façam continuar a viver e a levantar-me sempre que algo me mandar abaixo. Sinto que há quem não acredite em mim e que não consiga ver todos os esforços que tenho feito (e têm sido enormes) para melhorar. Gostava imenso de poder mostrar que não desisti, nem vou desistir e que o meu coração ainda acredita que daqui a uns tempos vou agradecer ter ultrapassado toda esta tempestade.

Por enquanto só me resta ir dando passinhos de bebé até um dia olhar para trás e perceber que esses passinhos se tornaram gigantes e que eu passei a ser um ser com uma mente e uma força gigante.

Vamos ter esperança.

D para Depressão.

por AF, em 05.04.19

Ontem fez quatro meses que decidi mudar a minha vida e entrar para um tratamento psiquiátrico intensivo. Parece assustador não é? "Tratamento psiquiátrico intensivo", "hospital de dia", "internamento parcial".

Mas sabem o que aprendi nestes noventa e cinco dias?

Nem sei por onde vos começar a contar.

Em primeiro lugar, temos que começar a descomplicar e a perder o medo da expressão "saúde mental". Aliás, não é desse conceito, deixem-me reformular: temos que perder o medo de falar de depressão, ansiedade, suicídio, distúrbios mentais, perturbações psicológicas e esses nomes todos estranhos que as pessoas normalmente fogem. Elas existem e uma enorme parte da população mundial sofre delas. Sem vocês saberem, podem estar no dia a dia a falarem com dezenas de pessoas que sofrem de perturbações mentais em completo silêncio.

Vamos aos números: mais de 12% das doenças que existem no mundo inteiro são de foro psiquiátrico e, dessa percentagem, 4,4% pertence a pessoas que sofrem de depressão. Directamente falando, isto significa que mais de 300 milhões de pessoas no mundo lidam com depressão todos os dias. Se quiserem algo mais chocante a principal causa de mais de 800 mil mortes todos os anos do mundo é a depressão.

A única coisa que vos deve preocupar ainda mais que isto é saber que dentro deste gigante aglomerado de 300 milhões de pessoas, um quarto recebe tratamento e apenas 10% deles é que tem um tratamento adequado. Se não vos apetece fazer contas, deixem-me ajudar: de 300 milhões de pessoas a sofrer, 75 milhões recebe tratamento e 7,5 milhões é que se sente realmente ajudada.

Em Portugal 22,9% das pessoas sofrem de uma perturbação psiquiátrica, isto é um quinto da população nacional e é muito mais do que vos possa parecer. Nós somos 10 milhões de habitantes neste país e 2 milhões e 290 mil pessoas estão a sofrer todos os dias com uma perturbação mental. Uma em cada cinco pessoas sofre. Estão a ver a gravidade?

E em vez de falarmos, de alertarmos, de educarmos e tratarmos tentamos censurar a palavra e fingir que nada acontece. Criamos adultos perturbados e disfuncionais que por sua vez vão ter filhos que vão crescer numa situação familiar que não é de todo adequada. Em vez de enfrentarmos o demónio de frente, estamos a reprimi-lo porque ele é um tabu.

No meio disto descobri uma experiência que me veio abrir tanto os olhos.

Ao início pensei que fosse para ter seguimento normal com umas quantas consultas de dois em dois meses ou algo do género. Até que me vi numa sala com psiquiatras, psicólogas e enfermeiras a olhar para mim, todos muito sérios. Estava numa entrevista. Só que não era de emprego, era pior.

Quando me disseram as palavras "hospital de dia" tive vontade de gritar. Primeiro porque sempre associei hospitais de dia a centros onde os velhinhos vão quando não têm nada para fazer e depois porque hospital psiquiátrico não é de todo apelativo ao ouvido.

A minha primeira reacção foi um forte "não" com letras maiúsculas e a negrito e com um ponto de exclamação enorme a pairar por cima da minha cabeça. Como isso não era visível vim para casa com uns dias para pensar se aceitaria entrar no programa ou não. Com um diabinho num ombro e um anjinho no outro lá me decidi que iria atirar-me de cabeça porque era tudo muito melhor do que esperar sentada por uma consulta de psiquiatria que nunca mais vinha. Lembram-se da história?

O tempo passou e a cada semana senti que me ia descobrindo um bocadinho mais. E tenho direito a tantas coisas que não vos passa pela cabeça. Tudo sem pagar porque é num hospital público. Para além do mais, de quinze em quinze dias tenho lá a minha família não só para verem como me vou dando mas também para resolver qualquer tipo de problema que eu sinta necessário tratar.

O que eu quero dizer com isto é que eu sei que este hospital de dia é um dos poucos que existem em Portugal e é sem dúvida o melhor que existe porque eu já ouvi várias pessoas e vários profissionais a dizê-lo.

Sei que no norte do país nem sequer existem estes programas e como aí também noutros lados menos povoados as pessoas vêem-se completamente sozinhas no que toca a ajuda e acompanhamento. O que me deixa triste é saber que para muitas dessas pessoas a vida chega ao fim.

Eu não sou a única a ter pensamentos maus. Não sou a única a cometer erros na vida e a querer desistir de tudo e para além de ter encontrado pessoas com as quais me identifico estou a encontrar-me a mim própria e isso é o mais importante de tudo. Descobri problemas na minha vida que eu nem sabia que existiam e que estavam a limitar-me de uma forma tão intensa que eu nunca imaginaria como solucioná-los.

Ainda não sei mas estou a caminhar para lá.

Não se iludam. Os pensamentos continuam cá. A dor e a tristeza profunda ainda não me abandonaram mas eu já consigo ver uma pequena luz ao fundo do túnel que tem um potencial enorme para crescer. Eu também tenho potencial para crescer, para me tornar numa pessoa melhor, uma pessoa mais forte.

Gostava que mais pessoas tivessem a oportunidade de fazer o caminho que eu estou a fazer agora e espero que no futuro exista uma luta maior pela saúde mental. Até lá vou tentar pôr-me boa para me juntar a essa batalha.

Mas de uma coisa podem ter a certeza, eu vou lutar. Seja por mim, seja por todas as outras pessoas que sofrem, eu vou estar lá na linha da frente a dar o corpo às balas se for preciso porque vou estar mais forte para proteger e dar a mão a quem está frágil e não consegue ter forças para lutar.

Sempre na esperança de que um dia Portugal seja um país com mais saúde e quem sabe mais felicidade.

Junta Médica.

por AF, em 01.03.19

Se há coisa neste mundo que me assusta mais do que palhaços são as palavras "junta médica". É só falarem-me disso que os cabelos na minha nuca se eriçam todos e o meu estômago começa às voltas. 

Imaginem a minha cara quando há cerca de duas semanas descobri que hoje à tarde me esperava a tão famosa dita consulta da junta médica onde um bando de médicos que nunca me viu na vida iria decidir se eu continuava suficientemente doente para estar de baixa ou se estava óptima, fantástica, maravilhosa e pronta para voltar ao activo.

Não me interpretem mal. Eu quero voltar a trabalhar. Quero construir uma vida e uma carreira que me possa tornar uma verdadeira adulta. Ser alguém. Viver e não existir só.

Mas eu ainda não estou bem. Ainda há muita coisa trancada dentro da minha cabeça que tem que ser arrancada cá para fora, analisada e resolvida. Estou no início desta pequena aventura mas já descobri que existe muito para remexer. Estou a tentar, disso tenho a certeza.

Acontece que a junta médica não é propriamente conhecida por ter as pessoas mais simpáticas do mundo a trabalhar lá. Normalmente, entra-se na sala e deparamo-nos com médicos mal encarados que nos querem mandar trabalhar estejamos a morrer ou não. Por isso, não é uma surpresa quando ouvimos pessoas verdadeiramente doentes saírem de lá irritadas, deprimidas, frustradas e revoltadas porque num espaço tempo de minuto e meio alguém que nunca os conhecera anteriormente decidiu que estavam óptimos para trabalhar, só porque sim.

Eu sei que é tudo por causa de uma minoria (ou não) de pessoas que acham que podem enganar a segurança social e viver à custa de uma entidade que todos pagamos apenas porque não lhes apetece trabalhar. Mas temos que pensar nos outros: aqueles que estão mal e que precisam de ajuda. E, acima de tudo, que precisam de tempo para ter essa ajuda.

Só que hoje.... hoje foi diferente! A ansiedade estava lá, a dar cabo de mim tal como se eu tivesse acabado de comer um iogurte estragado. Continuava mal disposta, nervosa, pronta para desistir de respirar e atirar-me para o chão. Estive assim até ser chamada e entrar no consultório onde duas senhoras simpáticas estavam à minha espera. Acreditam nisto?! Simpáticas!

Nem dois minutos estive lá dentro. Fizeram-me uma ou duas perguntas básicas, leram os meus relatórios e mandaram-me embora com um papelinho que me dava autorização para continuar de baixa e consequentemente continuar o meu tratamento diário.

Porque acreditem ou não, é importante que continue a fazer o que tenho estado a fazer nestes últimos dois meses para que um dia possa finalmente dizer que estou bem. Vai demorar, eu sei bem que vai demorar, mas o importante é não desistir.

E sei que isto de sermos apenas números e de termos pessoas desconhecidas a decidirem o nosso futuro com míseros minutos de "conversa" e sem olharem para nós como realmente somos, como realmente sofremos. Mas esse é um tema para outro dia.

Talvez nos próximos capítulos.

Mudar de vida.

por AF, em 19.01.19

Todos os anos ouvimos as pessoas dizerem aquela frase feita de "ano novo, vida nova". Todos os anos reviramos os olhos ao percebermos que o ano não representa necessariamente uma reviravolta na vida de cada um, é apenas um trocar de calendário.

Assim que bateu a meia noite, dei por mim em 2019 sem a mínima ideia de como seria a minha vida dali para a frente. O meu coração gritava que queria mudar e a minha cabeça achava que era tudo tretas. E poderia mesmo ter sido.

Mas lembram-se de eu vos dizer que não ia desistir?

Há cerca de duas semanas comecei, talvez, a viagem mais importante da minha vida. Não era uma viagem física em que partiria de mochila às costas e ia visitar outro país. Desta vez, parti de mente aberta e vim descobrir-me a mim própria.

Aquilo que sempre me impediu de avançar e de ser a pessoa que eu realmente queria ser era, antes de mais, eu não saber quem queria ser. Não fazia ideia do que representava ser a "Filipa" nem para que propósito servia a minha própria existência. Não se deixem enganar pelas minhas palavras, eu ainda hoje não sei de todo aquilo que me traz ao mundo ou o que quero viver.

Só que no meio disto tudo aprendi uma coisa: eu ainda não sei, mas vou saber.

Entrei para um tipo de tratamento que representa uma oportunidade única na vida de uma pessoa com problemas psicológicos. Passo os meus dias fechada numa unidade de um hospital que me trata bem e me estimula como se eu fosse uma criança a aprender a dar os primeiros passos. Logo aqui estou a imaginar muitos de vocês a lerem isto e a pensarem "onde raio é que te foste meter?" e até podem ter a vossa razão porque visto de fora parece que só estou a brincar num sítio onde somos todos malucos.

Apercebi-me de que se queremos mudar seriamente quem somos e revolucionar a nossa perspectiva de ver a vida precisamos de regredir completamente e voltar a formular a nossa personalidade como se tivéssemos quatro/cinco anos outra vez. No meio disto tudo, como somos todos adultos é óbvio que nos vamos portar como tal e ser desafiados num grau maior que um pequeno ser humano seria. Fazem-nos perguntas difíceis, confrontam-nos com o significado das nossas próprias palavras e na maioria das vezes em que nos encontramos cara a cara com os nossos pensamentos acabamos por notar que afinal o mundo não é todo preto nem todo branco.

E aí começamos a colori-lo.

Soltamo-nos com actividades que nos fazem rir pelas nossas figuras de parvos. Aceitamos que não são "figuras de parvos" mas processos necessários para que nos possamos sentir bem com a pessoa que somos e aceitar que toda a gente neste mundo se preocupa mais com a imagem que mostra para os outros do que realmente em julgar quem está à volta. Existem 7 biliões de pessoas no mundo, é completamente impossível que todos pensem desta forma simpática e madura mas levamos daqui a lição importante de que não só não podemos mudar quem está errado como devemos aceitar que essas pessoas não representam nada na nossa vida.

Eu disse-vos que ia escalar uma montanha ainda antes de saber que tipo de montanha era. Sempre soube que o caminho era difícil e não é agora que vos venho dizer que afinal é muito fácil e é tudo lindo e maravilhoso. Tenho dias em que sou confrontada com realidades que me lembram das minhas próprias experiências e acertam-me como um soco tão forte no estômago que quase perco o ar. Só que isso é completamente necessário.

Na vida precisamos de experienciar felicidade, tristeza, revolta, compaixão. Tudo de bom e tudo de mau num equilíbrio que faz de nós quem somos, que faz de nós humanos. Precisamos de aceitar que os sentimentos são para ser sentidos porque se os escondermos no fundo de uma caixa que está guardada lá em cima do armário então um dia mais tarde quando abrirmos a caixa ela vai dar cabo de nós. E aí, o que fazemos?

Por isso sim, este ano comecei sem pensar que seria "ano novo, vida nova" mas comecei a mudar a minha vida um degrau de cada vez. À medida que vou escalando vou aprender tanto sobre mim que quando acabar nem vocês me vão reconhecer.

Mas não se vão embora porque eu vou andar por aqui sempre a partilhar a minha história convosco. E qualquer dia pode ser que deixe de ser cronicamente fabulosa e passe a ser só fabulosa.

Quem sabe.

Montanhas e abismos.

por AF, em 27.11.18

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Tenho estado sentada à beira do abismo, com os pés a balançar devagarinho.

Os meus olhos estão fechados porque eu não preciso de ver, só preciso de sentir.

Preciso de sentir as minhas mãos no chão onde bocados de pedra se espetam lentamente sem eu dar por isso até que quando percebo já estão bem fundo da minha carne. Preciso de sentir os murros e pontapés que a vida se fartou de me dar enquanto a minha alma recupera das lesões.

Preciso de sentir a dor, o sofrimento, o ódio, a revolta, a depressão. Tenho estado sentada à beira do abismo à espera não sei de quê: se de coragem ou de controlo. Mas todos os dias me vejo ali meio perdida meio encontrada a olhar para a escuridão debaixo dos meus pés, a pensar no monstro lá em baixo.

Agora não quero ver. Sinto o meu peito a abrir e fechar conforme a minha respiração fica mais rápida ou lenta. Não quero prestar atenção às vozes que ecoam na minha cabeça. São os demónios que me querem levar, são os inimigos da minha existência. Aliciam-me com propostas indecentes de não sentir mais dor, dão-me a experimentar a doce droga da felicidade momentânea que me faz lembrar como é estar nas nuvens por uns segundos. Todos sabemos o que acontece com as drogas: toda aquela fantasia nunca é o suficiente. O efeito é curto e queremos mais e mais sem nos preocuparmos com consequências ou com o futuro. O presente é que interessa. Aquela excitação interior, a vontade de sonhar, a euforia de viver e de sentir que posso fazer tudo e que nada nem ninguém neste mundo me pode impedir de vencer.

Nisto a escuridão começa-me a puxar e eu começo a escorregar sem dar por isso. Quando abro os olhos ela pára, o efeito desaparece mas eu já estou pendurada no abismo apenas pelas mãos sem saber como vim aqui parar.

O meu corpo está mole e demasiado pesado. Dói demasiado. Respirar é complicado quando as trevas me sufocam. Não consigo gritar, não me consigo mexer, não consigo fazer nada. Porque é que eu não consigo fazer nada?!

As mãos pareciam aguentar-se mas voltam a escorregar. Eu uso todas as minhas forças para me erguer e às vezes consigo quase deitar-me de volta na beira do abismo. É temporária a sensação de segurança, de sentir que me vou libertar. Eu sei que a escuridão não me larga de maneira alguma e continua a fazer-me cheirar o doce perfume da liberdade. Só que aquilo não é liberdade.

A liberdade só resulta se eu a viver e caindo no abismo não há mais nada para mim.

O vento sopra com força fazendo-me vacilar. A tempestade vem, despeja toda a sua raiva em cima de mim e os meus dedos deslizam.

Se calhar estou a lutar contra o meu destino, se calhar estou a tentar contrariar algo que não devia, estou a tentar fugir de onde pertenço. As vozes gritam que me devo largar, que lá em baixo é maravilhoso, não vou sentir nada, só a doce liberdade.

Então largo-me.

Largo-me sabendo que tomei a decisão certa. Deito uma lágrima por quem deixo mas sorrio sabendo que a paz me espera. Será mesmo a paz? Agora já não importa, já estou a cair.

Estou quase a chegar ao fim, onde - sem eu própria saber - se encontram rochas afiadas prontas a trespassar-me. Não existe paz. Não existe nada. Já não me importa porque a minha decisão foi tomada quando me deixei cair do abismo. Volto a fechar os olhos e espero.

Só que eu nunca chego lá. Bem antes de tocar no fundo existe algo que me apanha e me leva de volta para cima. Não vejo bem ao início porque é uma luz que me ofusca tanto e eu ainda estou perdida e confusa.

Estou a voar. A minha cabeça está a andar à roda, estou meia adormecida mas sei que voo e deixo-me ser lentamente levada por uma sensação de que estou livre pensando ainda que é por me ter deixado ir. E assim adormeço.

Quando acordo estou de volta à beira do abismo. Desta vez sentada a uma certa distância dele num pequeno extracto de relva molhada e fria. É refrescante, é uma sensação diferente que me oferece conforto. Vejo ao longe o anjo que me salvou desaparecer mas sei que não me abandonou. Este caminho tem que ser feito por mim.

Eu antes não via mas sempre tive atrás de mim uma montanha com um destino diferente do outro lado. Agora vejo-a. É alta, perigosa e eu não tenho os materiais necessários para a escalar. Sinto-me uma dor no peito quando penso em escalá-la. Sei que não sou capaz.

Não, eu acho que não sou capaz. Talvez até consiga. Quem sabe se um dia não atinjo o topo.

Eu tenho começar a subi-la. É tão mas tão difícil. Quando olho para o abismo a pensar se talvez não fosse melhor deixar-me cair, vejo-o ficar rodeado de estacas de ferro aguçadas e ardentes que chegam cada vez mais perto da montanha. Não tenho outra escolha; preciso de subir. Por mim, pela minha sobrevivência.

Não tenho confiança mas tenho esperança. E a esperança é a última a morrer por isso, faço força e agarro em mais um bocado de rocha que me erga. Vou encontrando materiais que tornam o caminho menos insuportável. Vou tentando, tenho mesmo que tentar. E assim vou fazendo. Devagarinho e esperando não cair.

Ainda não subi a montanha, ainda nem vou a meio. Mas já ouço vozes lá em cima, diferentes das outras, mais suaves e dóceis. Não me prometem coisas que não podem oferecer, não me fazem acreditar na felicidade que me leva às nuvens mas garantem que nunca me vão deixar voltar a cair. São vozes amigas, vozes de pessoas que eu amo e que me amam também.

Então vou continuando a subir. Não posso ser rápida porque o caminho está cheio de buracos falsos a que me possa agarrar. É um desafio, tenho que pensar com clareza e encontrar as passagens que são melhores para mim.

De vez em quando olho lá para cima à procura do topo e não o consigo ver, só imaginar. Deve ser maravilhoso: algo que eu nunca vi, um prado tão verde cheio de relva fofinha para eu correr em liberdade e sentir que mesmo que não consiga conquistar o mundo, consigo conquistar-me a mim própria. E é só isso que me importa.

Tenho que ser eu mesma, tenho que lutar por mim, pelos meus sonhos, a minha felicidade, a minha família, os meus amigos, pelas coisas que gosto e pelas coisas em que acredito. Não é uma questão de escolher, é uma questão de fazer.

À medida que subo a montanha olho em redor e vejo outras montanhas que outras pessoas escalam com dificuldade. Algumas estão no início, outras já lá em cima mas todos estamos iguais. Todos precisamos de nos encontrar.

Vou continuar a escalar. Vou tentar não cair. Vou esforçar ao máximo por pisar as rochas certas e agarrar-me a pontos fixos.

Não prometo que consigo, isto é tão difícil, é quase impossível. Mas falta o quase e isso já é alguma coisa. Não posso prometer que consiga chegar ao topo. Estou no início do caminho e ele é tão longo que posso vir a passar a vida a fazê-lo.

Mas uma coisa prometo: eu vou tentar.

E acima de tudo, eu não vou desistir. Nunca mais.

SNS no seu melhor.

por AF, em 17.11.18

Deixem-me contar-vos uma pequena história que me aconteceu no início desta semana.

Nós vivemos num país onde existe um sistema nacional de saúde (e ainda bem) que tem como objectivo proteger e apoiar o cidadão em todas as questões relacionadas com o nosso bem-estar físico e também emocional. Dito isto é-me igualmente importante referir as inúmeras campanhas em cartazes ou mesmo na televisão que ao longo dos anos nos foram garantindo que nos ajudariam em caso de alguma necessidade mental como a depressão. Ligaríamos um número, procuraríamos um médico, seríamos sempre ajudados e encaminhados para o sítio certo.

Ok, até aqui tudo bem.

Vamos então ver isto na prática.

Não me vou pôr com falinhas mansas e mentir-vos nem vou apagar as antigas publicações que dizem explicitamente o que se passou comigo. Foi uma realidade que acontece a muitas pessoas e apesar de certas pessoas importantes na minha vida considerarem completamente desnecessário andar a contar às pessoas quero deixar claro que não vou usar a minha história de forma a expor a minha vida só porque sim. Só porque "coitadinha da Filipa, que é tão boa menina e não merece isto". Não são esses comentários que ajudam e com todo o respeito não me interessa minimamente se estão a falar de mim por A, B ou C. Foi essa a decisão que tomei há duas semanas atrás.

Na mesma altura em que emborcava quase duzentos comprimidos e decidia acabar com a minha vida. Pois, é isso mesmo. Para quem até então não sabia: eu, a fabulosa escritora de um blog sobre uma doença chata que não interessa nem ao menino jesus, decidiu pôr fim a tudo. Claramente foi um plano mal pensado porque não estaria aqui se fosse o contrário.

A questão aqui é explicar-vos o que está errado com o nosso sistema de saúde, neste preciso momento.

Eu raramente tive queixas em relação a isto. Mentira, eu estou sempre a queixar-me em relação a tudo. E quando digo tudo é TUDO. Às vezes pareço as velhas, socorro. Mas prosseguindo, eu nunca me irritei mesmo ao ponto de ficar tão revoltada e perder toda a credibilidade na nossa saúde pública até esta semana.

Ok, esperar meses por consultas. Ok, esperar horas nas urgências cheia de dores. Ok, ver que os médicos, enfermeiros e auxiliares muitas vezes estão a brincar para aliviar o ambiente ou a discutir quem vai dormir primeiro antes de nos ajudarem. Ok, acharem que estou a fazer um autêntico drama e dizerem que não tenho nada durante dois anos até finalmente considerarem importante dizerem-me que tenho fibromialgia. Que choque. Esperem, lembrei-me de uma última: OK, a minha própria psiquiatra dizer-me na minha cara que não me pode ajudar em questões importantes porque não é esse o trabalho dela e passar logo a seguir ao momento da consulta em que me faz um plano esquematizado e exagerado sobre os medicamentos que tenho que tomar para manter a minha cabeça calma e manter-me uma pessoa minimamente normal e activa na sociedade.

Eu até desculpei isso tudo. E até dei valor aos médicos, enfermeiros e auxiliares que me trataram e me ajudaram imenso enquanto estive três dias internada no hospital depois deste episódio todo. Achei que afinal as greves deles não eram assim tanta frescura pela quantidade de trabalho e de parvoíces que têm que aturar todos os dias. Achei que estava a ser um fardo enorme para eles e tentei dar o mínimo de trabalho possível e agradecer sempre que eles me ajudavam ou me ajustavam os tubos, eléctrodos, e todas essas porcarias que estavam ligadas a mim. Por momentos dei-lhes razão. E não quer dizer que hoje não dê e parte de mim não os apoie mas isso é uma questão para outro dia ou para outro contexto que realmente não me apetece abordar publicamente.

O que importa aqui é que eu sempre os respeitei e que lhes dei imenso valor quando lá estive.

Os médicos psiquiatras ajudaram-me. Disseram-me que era imperativo que a minha consulta fosse antecipada e que eu começasse uma terapia que não me ajudaria só com a minha depressão mas também com a fibromialgia. Falaram-me de coisas que poderia fazer para me ajudar a não me sentir tão mal e eu realmente senti que eles não me estavam a julgar mas a tentar ajudar-me. Então, apesar de claramente deprimida e ainda sem qualquer vontade de viver, saí do hospital com a esperança de que se tivesse a ajuda que eles me tinham prometido talvez o meu desejo de ter uma vida longa e próspera voltasse.

Lembram-se da lei de Murphy? Como é óbvio, quando algo pode correr mal vai correr mal. E todos sabemos que Murphy é o meu nome do meio. E se não era, estou oficialmente a adoptá-lo já que ela se aplica a praticamente tudo na minha vida.

Quando finalmente me senti fisicamente capaz de ir ao centro de psiquiatria, que pertence ao hospital onde estive internada, fazer de pombo correio e passar-lhes todas as informações que os psiquiatras me tinham dito... Foi aí que dizendo da forma mais directa: a porra ficou séria.

"Mas já tem consulta marcada para Janeiro". Disse-me a secretária que eu claramente não odeio por ela ser empertigada, insensível e ocasionalmente mal educada para os utentes.

"Sim, mas os médicos no hospital pediram que a consulta fosse antecipada por causa das razões que estão aí no papel". O papel era a minha alta hospitalar que dizia quase como que escrito para uma criança o que é que eu tinha feito.

"Mas as consultas estão cheias e já tem a consulta marcada em Janeiro".

"Como deve calcular, eu tentei suicidar-me há uma semana e meia e posso já não estar cá em Janeiro."

"Pois."

"Pois." Aqui é a parte em que eu respiro fundo e me lembro que a minha mãe me ensinou a ser uma menina educada e a não tratar mal as pessoas quando estou irritada mesmo que a dita pessoa seja uma completa anormal. "Por isso é que preciso da consulta. No hospital disseram-me isso. E também preciso de começar a terapia da psicomotrocidade porque eles acham que é muito importante para me ajudarem."

"Pois mas isso tem que ser autorizado pela médica". Não me lembro de certas palavras pelo meio mas ela lá se levantou para ir falar com a maravilhosa doutora nova que me foi atribuída já que a minha antiga psiquiatra desapareceu do mapa e decidiu não dar a mínima para os pacientes dela. Se calhar se tivesse dado e me ajudado como devia eu não estava neste estado. Mas não vamos atribuir culpas. Se a culpa disto é de alguém, esse alguém sou eu.

Enfim, ela foi.  Ouvi entretanto umas médicas ou enfermeiras a rirem-se lá dentro enquanto os pacientes esperavam cá fora com ar de quem estava a morrer e nisto tudo tinham um obviamente maluco a avisar toda a gente que estávamos quase no Natal, porque isso é super importante no início de Novembro.

E entretanto voltou.

"Falei com a doutora mas ela diz que não há vagas para consultas. Tem que vir cá em Janeiro quando tiver consulta marcara." Eu fiquei um momento calada. A olhar para ela e a tentar assimilar que eu tinha acabado de ser rejeitada por uma psiquiatra que tem obrigação de ajudar as pessoas principalmente quando elas estão em risco.

Não me levem a mal. Eu não quero passar à frente das consultas dos outros só porque sim. Todos temos os nossos demónios a combater, todos eles são diferentes e nenhum é pior que o outro.

Mas eu tentei matar-me.

E o facto de ter sobrevivido não faz de mim uma pessoa automaticamente feliz que decidiu que afinal a vida merece ser vivida e que temos todos que dar graças a deus por estarmos vivos. Eu fiz o que tinha a fazer porque assim o sentia e não foram três dias no hospital, em que passei 80% do tempo a dormir completamente drogada, que me fizeram mudar de ideias.

"A senhora não tem a culpa". Disse eu a tentar ser simpática enquanto lhe chamava todos os nomes possíveis e imagináveis na minha cabeça e me aguentava ao máximo para não lhe arrancar aquela cara de cu à força. É que sinceramente, toda aquela indiferença, insensibilidade e pose de "temos pena" irritaria um santo. Continuando: "Mas você tem a noção que me tentei matar? E eu estou aqui porque preciso urgentemente de uma consulta porque eu não sei se não o farei outra vez."

"Mas nós não somos um serviço de urgência, quando isso acontecer tem de se dirigir às urgências." Filha, de onde é que tu achas que eu vim?

"Você sabe o que me fazem nas urgências? Dão-me uma injecção para me acalmar e me porem a dormir e depois mandam-me embora sem fazer nada e dizem para vir aqui."

"Pois".

Mais uma vez, já a deitar aqueles 'pois' pelos ouvidos: "A senhora não tem a culpa mas o que é que é preciso eu fazer para ter ajuda? Vir aqui morta, enterrada, dentro do caixão???"

Depois de ouvir o que tinha dito é que percebi que era impossível ir enterrada para lá, mas ela percebeu a ideia porque ficou calada a olhar para mim muito séria antes de soltar um "Pois." Maldito pois, maldita secretária, maldita médica, malditos eles todos.

"Pois". Foi a minha resposta. Agradeci não sei porquê já que eles não me ajudaram em coisíssima nenhuma e saí derrotada do centro de psiquiatria acessível a todas as pessoas que estão inseridas no sistema nacional de saúde que promete ajudar, proteger e apoiar quem mais precisa.

Se chorei? Chorei. Não tenho vergonha nenhuma de dizer que chorei e me senti sufocada naquele momento como se mais uma vez o mundo me caísse em cima e me esmagasse o peito.

Ali estava eu, finalmente a procurar a ajuda que toda a gente dizia que eu precisava, para ser simplesmente ignorada por uma médica que nunca me viu, para ser despachada por uma secretária que odeia o que faz e só vê dinheiro à frente e para ser completamente lixada pelo estado.

Sabem o que tenho que fazer? Tenho que ir para o privado onde certas consultas chegam a custar 60€ (se não encontrarmos melhor) e numa sessão de 60 minutos em que dizes que precisas de falar muito disto porque precisas de ajuda eles acabam por te responder "Isso fica para a próxima sessão sim?" Só para poderem ganhar mais 60€ e eu ficar cada vez mais pobre enquanto tento ficar sã.

Resumindo e concluindo pessoal: ou somos malucos e aceitamos ou morremos e depois toda a gente diz que não merecíamos e que tudo teria sido diferente se tivéssemos procurado ajuda.

E depois a maluca sou eu? Está certo.

Eu estou aqui.

por AF, em 09.11.18

Antes de voltar a escrever aqui, porque claramente ainda não estou preparada, deixem-me só dizer-vos que estou viva.

Salvaram-me a vida.

Não quero dar muitos detalhes porque sei que a minha família fica magoada e frustrada por eu deixar aquela mensagem pública mas quero dar a entender uma coisa.

A saúde mental (que não está apenas fortemente ligada à fibromialgia) é um assunto demasiado importante para ser esquecido e deixado de lado. Estamos há demasiado tempo a pôr as nossas prioridades em ordens que não devíamos e a deixar a nossa própria saúde para trás.

Eu fiz o que fiz. Não vou esconder nem vou gritar ao mundo inteiro que o fiz. E escrever aqui não conta porque convenhamos, não são muitos que o lêem.

Queria só dizer-vos que estou viva e iniciei o meu caminho para ficar bem. É uma viagem tão difícil que ainda não sei como a vou fazer mas não estou sozinha. Tenho a família e os amigos do meu lado. Tenho amor, carinho, preocupação. E apesar de continuar com ideias e pensamentos maus no meio disto tudo tenho uma ainda mais certa e ainda mais focada que todas as outras: eu vou viver.

E esse é o primeiro passo que vou dar.

O que precisas de parar de dizer a pessoas com dor crónica.

por AF, em 03.09.18

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Está na hora de ensinar.

Está na hora de te contar aquilo que não deves dizer a alguém que sofre de dor crónica porque apesar de parecer certo fazer este tipo de comentários ou perguntas uma coisa é certa: é altamente inconveniente.

Eu sei, eu sei. Tu só queres ajudar. Não sabes o que dizer quando se traz o assunto à baila e a tua maneira de te mostrares genuinamente interessado ou preocupado é tentar arranjar soluções ou oferecer certos elogios acompanhados de espinhos. Não sabes do que falo? Então vamos lá. Hoje vou ensinar-te aquilo que tens que NÃO dizer a pessoas com dor crónica.

 

1. "Mas tu não pareces doente!"

Estás a gozar, certo?

Pode parecer um elogio daqueles que a pessoa recebe e só pode ficar super feliz, mas a verdade é que ao dizeres isto estás, de certa forma, a desvalorizar toda a luta que a pessoa tem que passar a cada dia. Nem todas as doenças são visíveis. Existem doenças mentais altamente incapacitantes que à primeira vista não parecem estar lá. A dor crónica é igual. Podemos parecer lindos e maravilhosos por fora e por dentro estarmos numa verdadeira batalha campal.

Não nos faz sentir bem ouvir que não parecemos doentes. Especialmente se vier de médicos, ficamos logo a pensar que não vão acreditar em nós e que a ajuda que tão desesperadamente precisamos nunca vai chegar.

Eu sei que tens uma boa intenção ao dizer isto mas confia em mim, não é bom.

 

2. "Já experimentaste isto ou aquilo?"

Não. Não, não, não, não.

Sim, já experimentei isto, já experimentei aquilo.. AH! E aquela coisa? Sim, também! Se não fores um especialista certificado em dor crónica, por amor de deus, não faças isto. Estares a dar listas de soluções que não sabes se resultam só porque leste naquele artigo na internet ou viste na televisão é uma péssima ideia. E porquê? Em primeiro lugar, porque as respostas que vais ter são normalmente sim a tudo. Aquilo que disseres ou sugerires provavelmente já foi pensado por nós antes de ti. Lembra-te, vivemos com isto todos os dias, tudo aquilo que pensares nós já pensámos e procurámos encontrar solução em desespero para ver se algo resulta. E queres saber? Na maioria das vezes não resulta! O que nos leva à razão seguinte: o tratamento que funcionou com a tua prima, tia ou amiga da vizinha do tio da namorada não tem um selo de garantia que funcione connosco. Todos os organismos são diferentes. Todas as pessoas respondem a tratamentos de forma distinta, por isso, por mais que queiras ser útil e simpático infelizmente não é a melhor forma de o seres. Mas não desanimes, a tua atenção e apoio já são suficientes para nós.

 

3. "Porque é que és tão preguiçoso(a)?"

...

Imaginemos que és atropelado por um camião tire. Logo a seguir passa-te um cortejo de animais do jardim zoológico por cima. Quando finalmente te levantas és espancado por um grupo de homens zangados e por fim ainda vem um anão com um taser que te dá choques eléctricos. Estás a imaginar? Agora diz-me como te sentirias depois disso tudo e se conseguirias ter a força suficiente para fazer coisas triviais durante o dia-a-dia.

Ok, até posso estar a exagerar um bocadinho. Mas uma coisa te garanto, dizeres que sou preguiçosa quer seja a sério ou a brincar vai-me fazer sentir tão mal comigo própria que me vou desvalorizar como pessoa. Sim, eu sou preguiçosa. Não, não faço nada da vida. Pois, realmente sou inútil e uma vergonha porque devia ser uma adulta responsável e fazer tudo aquilo que preciso e muito mais. Estou no auge da minha vida, o que raio estou a fazer?

Acho que estás a perceber o meu raciocínio. As pessoas com dor crónica não passam só pelo inferno físico em que têm que aturar a dor, fingir que ela não está lá e seguir em frente com o dia. Também têm que passar pelo terror psicológico que é deixarem de ser pessoas completamente normais com um futuro promissor para serem pessoas que têm que fazer um esforço enorme para se levantarem sequer da cama a cada dia que passa. É frustrante, revoltante e faz-nos sentir que se calhar nem vale a pena tentar nada disto porque no fundo somos só preguiçosos.

 

4. "Que exagero, não te pode doer assim tanto. Estás a fazer isso para chamar a atenção."

E aqui entramos num campo de: não vejo por isso não acredito na tua dor. Uma das piores coisas de ser um paciente crónico é ter alguém a dizer-nos que não estamos a sentir aquilo que realmente estamos a sentir. É a mesma coisa que partires um braço e alguém chegar ao pé de ti e dizer "isso é só um arranhão". Aposto que não ias gostar e ias ficar frustrado porque querias era que alguém te ajudasse em vez de dizer que só queres chamar a atenção.

Eu não preciso de chamar a atenção nem ganho nada com isso. Honestamente acho que tenho melhores formas de passar o meu tempo do que ter dores. Mas não posso evitar senti-las, não existe um botão mágico onde eu possa carregar que desligue automaticamente o meu centro de dor. Era tão bom, não era?

Por isso, se achas que pessoas como eu não tem mais nada que fazer do que queixarem-se de dores e sentirem-se fisicamente péssimas só para chamarem a atenção, tenho más notícias para ti: és uma pessoa horrível.

Ninguém se sente bem por minimizar o sofrimento dos outros e ainda o ridicularizar pelo que está a passar. Isto é sério: ninguém mesmo.

 

5. "Isso acontece porque não és religioso(a) o suficiente e deus está a castigar-te."

Tenho que me rir tão alto com esta. Primeiro porque deus tem mais que fazer do que estar a castigar todas as pessoas que não são religiosas o suficiente. A sério, achas mesmo que ele passa o dia a fazer isso? E depois porque não é a religião que provoca estes problemas médicos. Posso apostar contigo que a maioria das pessoas com dor crónica que é religiosa já rezou tantas, mas tantas, vezes por dia e pôs velas a arder e tudo mais e mesmo assim continua a sentir as mesmas dores. A ignorância espiritual é ridícula. Afinal deus, seja que deus for, é sobre perdão, misericórdia e amor. Não acredito que deus fosse castigar os seus filhos por tudo e por nada (por não rezarem, por exemplo) quando existem pessoas aí a roubar, matar e a fazer tantas coisas terríveis. Acredito que ele mais depressa tentasse aliviar o mal que existe no mundo, ao invés de o piorar através de castigos.

 

6. "Podia ser pior."

Pois podia, mas eu também podia estar a viver a minha vidinha descansada sem te ter a chatear-me a cabeça. O facto de dizeres que há pessoas piores que eu e que eu podia estar a morrer e não estou e etc, não me faz ficar melhor. Portanto se não estás a dizer nada que nos beneficie aos dois se calhar o melhor é não dizeres nada mesmo. Estou certa ou não estou?

É muito cansativo ter dores e ainda ter que me sentir culpada por me sentir mal com as ditas dores só porque há pessoas a morrer no mundo. Eu juro que lhes tirava todas as dores e maleitas que possam ter se eu pudesse. Mas não posso. Então porque é que sentes a necessidade de dizer isso?

 

7. "Espero que melhores."

Ok, eu até te perdoo por esta porque está cheia de boa intenção mas preciso mesmo de te esclarecer uma coisa. A dor crónica normalmente significa que não passa. É crónica, é uma coisa que está lá e que vai lá estar e eu realmente não posso fazer nada para a mandar embora porque, enfim, ela é um bocado casmurra. Aceito a tua boa energia, agradeço a tua preocupação e não te julgo por isso. É a melhor coisa que não deves dizer a alguém com dor crónica que podes dizer porque não nos ofende nem nos magoa. Estás a ser simpático. Só que infelizmente não vou melhorar. Vou lembrar-me que isto não tem cura e que todos os dias é a mesma história repetida e isso deixa-me um bocado triste.

 

8. "O teu problema é dos medicamentos! Devias parar de tomá-los."

Pois devia, realmente detesto drogas. Mas se agora me custa subir escadas, se deixasse de tomar ia-me ser praticamente ser funcional durante um dia inteiro. Durante uma hora sequer. Apesar de não ser, de todo, ideal o facto de ter que tomar comprimidos para as dores todos os dias (por várias razões que não vou listar agora), a verdade é que não consigo funcionar com elas nesta altura. Simplesmente não dá. Quanto mais os quero deixar e me esforço para isso mais as dores pioram e não me deixam libertar-me. Esta é uma das soluções que não vai mesmo de todo funcionar. Eu sei que achas que os medicamentos são inúteis e que só servem para nos viciar e por isso é que não os tomas e evitas ao máximo curar-te com eles mas comigo não é assim. Eu dependo deles para viver o meu dia-a-dia.

 

9. "Estás mais gordo(a), devias parar de comer porcarias!"

E tu podias começar a meter-te na tua vida. Não é por me dizeres que estou mais gorda que eu de repente vou emagrecer vinte quilos como que por magia e ficar mais apelativa visualmente só para ti. Eu sei que estou mais gorda. Todos os medicamentos que tomei desde que esta viagem começou fizeram-me ficar assim. Não só porque me incharam mas também porque me obrigaram a comer mais sem que eu pudesse controlar. Acredita que isto é real. Dizeres-me que estou mais gorda faz-me sentir que para além de doente sou horrível. Não penses que não me olho ao espelho todos os dias. Eu olho e vejo tudo aquilo que fui e tudo aquilo que sou agora. Eu não gosto. Na verdade eu detesto e faz-me sentir tão triste.

 

10. "Eu também tenho dores e não me queixo."

Eis a diferença entre doer-te a perna ou o braço porque caíste ou bateste em algum lado e em ter dor crónica. A tua dor vai passar. O teu problema é momentâneo, podes resolvê-lo podes engessar um braço partido, podes desinfectar uma ferida numa perna mas a dor que eu tenho não tem cura. Eu vou viver toda a minha vida com fibromialgia. Eu não vou ter um dia de descanso, não vou poder fazer uma pausa disto. Vou continuar a senti-a todos os dias sem poder fazer nada. Sim, posso tomar os medicamentos. Sim, posso ter cuidado comigo e não me esforçar demasiado. Só que tudo isso só ajuda até um determinado ponto. A partir daí a única coisa que posso fazer é aceitar e esperar que o dia de hoje não seja muito mau. E fazer isto a cada dia sem desistir.

 

Estas são só uma parte das coisas que nos dizem. Não és só tu. Todos os dias de diferentes pessoas eu ouço várias coisas sobre mim que me faz pensar que as pessoas realmente devem achar que sabem mais de mim do que eu própria. Não as censuro porque não vale a pena. Não é porque me querem mal, é porque não sabem. Mas agora tu sabes. E podes ter atenção às tuas acções da próxima vez que falares com alguém com dor crónica. São as pequenas coisas que fazem a diferença. Achas que isto é muito? Há tantos mais exemplos para dar mas ficaria aqui o resto do dia a escrever e, sejamos sinceros, não ias ter paciência para ler. Por isso hoje deixo-te aqui uma pequena lição e um pequeno apelo.

Agora já sabes, da próxima vez: tenta mostrar o teu apoio e simpatia. Não te preocupes com soluções ou em constatar coisas mais do que óbvias. Não precisamos disto. Só precisamos que estejas lá e que nos ouças. Se soubesses como isso é importante. Mas eu confio em ti e sei que te vais sair bem.

Obrigado por estares aqui.

Obrigado por me ajudares a ser cronicamente fabulosa.

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