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Cronicamente Fabulosa

Tenho fibromialgia, mas também sou fabulosa e esta é a grande aventura que é a minha vida.

Cronicamente Fabulosa

Tenho fibromialgia, mas também sou fabulosa e esta é a grande aventura que é a minha vida.

Lições importantes.

por AF, em 17.07.17

Como em todas as tempestades, aparece sempre o sol e um arco-íris.

Nestes sete meses em que vos contei a minha história, e me fartei de reclamar sobre a minha querida amiga fibromialgia, nunca houve uma vez em que vos dissesse que estava bem.

Hoje, é com grande alegria que admito que estou há uma semana sem dores. Bom, confesso que ontem foi um dia complicado mas não podia perder a oportunidade de mostrar que também existe o lado bom nesta doença.

Passei umas semanas complicadas. Estive de baixa médica em casa, sem poder trabalhar e a sentir-me completamente abandonada pelo nosso sistema de saúde. Senti que mesmo muito contrariada, lá veio a ajuda na forma de milagrosas "drogas". Enfim, o que for preciso para me sentir bem.

Voltei ao activo apenas há uns dias. Estou cansada, não nego que os últimos dias foram esgotantes o que é completamente normal tendo em conta que perdi aquele ritmo que é preciso ter para ser eficiente. Devagarinho vou voltar e ainda com mais forças.

O facto de ter ido completamente abaixo como nunca foi antes apenas serviu para me ensinar que eu realmente adoro o que faço como trabalho e gosto de levar alegria e magia às pessoas que cruzam a minha vida todos os dias. Também me apercebi que gostava de ser uma pessoa melhor, mais motivada, mais produtiva, mais... forte. Por isso tenho lutado e vou continuar a lutar para que todos os meus objectivos se concretizem.

É aqui que se torna importante aquilo que estou a dizer. Vão sempre haver dias maus nas nossas vidas. Seja o que for que vos atormenta, seja doença física, mental, seja qualquer outra coisa. Mesmo que vocês sejam pessoas completamente normais e não tenham muitas preocupações na vida (e é mesmo o que desejo para todos) haverá sempre aquele dia em que se vão sentir em baixo. Vão sempre cair. Vão sempre haver dúvidas, medos, a vontade de se deitarem na cama e não acordarem mais. Mas sabem que mais? Isso passa.

A tempestade passa. O pesadelo acaba. Nada na vida é para sempre e é isso que temos que perceber. Hoje podemos estar lá no fundo do poço sem conseguir ver a luz mas amanhã sem nos apercebermos estamos a trepar as paredes em direcção à liberdade.

A lição mais importante da vida é essa. Tudo é efémero. O que é mau pode vir mas também se vai logo embora. Basta-nos continuar a lutar e nunca desistir. Temos de que nos descobrir e encontrar a força escondida dentro de nós.

Hoje é um dia bom.

E eu vou lutar para que os restantes também o sejam.

Cronicamente destrambelhada

por AF, em 26.06.17

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Yoga. Já todos ouvimos esta sugestão certo?

"Já experimentaste fazer yoga? Faz maravilhas pelo corpo!"

A parte que não nos explicam ou que, muito provavelmente, não sabem é que praticar esta espécie de "ginástica" nos obriga a alongar o corpo e mantermo-nos vários segundos em posições desconfortáveis e um tanto duvidosas.

Não me interpretem mal, eu sempre quis fazer yoga! Isto até, claro, ter instalado uma aplicação no meu tablet que me dava aulas grátis e bastante completas com diferentes sequências e umas tantas posições ditas básicas. E seriam ridicularmente fáceis não fosse o caso de eu ter (sim, adivinharam) fibromialgia.

Deixem-me explicar-vos. Neste momento estou a passar uma pequena (espero) temporada em casa graças às maravilhosas dores da fibromialgia que me fazem sentir como se tivesse sido atropelada por um comboio. Sim, é tão agressivo como digo. Portanto, por indicação dos médicos especialistas decidi que seria uma óptima oportunidade para tentar melhorar através de técnicas naturais e alternativas que só podem fazer bem ao nosso corpo.

Liguei a aplicação. Escolhi obviamente a aula mais fácil e pequena e carreguei para começar. Uma senhora com uma voz incrivelmente relaxante começou a falar e a explicar-me o que deveria fazer com o auxilio de fotografias com as respectivas posições. Parecia fácil. Tinha que me sentar de pernas cruzadas e costas direitas. Enfim, nada de mais.

Até aqui tudo bem. Ela lá mudou de posição e eu tentei imitar da minha forma desengonçada e descoordenada como toda a gente já conhece. Mas o que interessa é que estava a tentar. Dei o melhor de mim para me tentar sentir melhor e de início pensei: "bem, acho mesmo que consigo dar cabo disto na boa".

Errado.

As poses eram fáceis. Os tempos para aguentar eram aceitáveis. Não havia nada que uma pessoa normal não pudesse fazer. Era básico e relaxante. Excepto para mim.

Confesso que me comecei a rir com a minha própria desgraça ao tentar suportar o peso do meu corpo numa prancha e a cair de seguida apenas porque o meu pulso não fazia a mínima força sem me doer como se estivesse partido (não está).

Tentei outra vez. Um bocado atrasada no meu timing e tal mas continuei a fazer o que a simpática senhora relaxante dizia. Só que ela decidiu complicar como se ainda não estivesse satisfeita com as minhas figuras tristes. Era preciso começar na posição de "downward dog" - confesso que não sei a tradução para português sem fazer o nome parecer ridículo - e estava-me a aguentar minimamente bem quando ela muito calmamente me diz para levantar a perna esquerda e esticá-la lá atrás o máximo que podia.

Ora, quem me conhece sabe que para além de ser extramemente descoordenada também não tenho a elasticidade que tinha quando andava no ensino básico e mesmo aí não conseguia fazer a avaliação de elasticidade sem parecer uma falhada no âmbito físico.

Manter uma perna estendida no chão enquanto a outra se erguia atrás de mim também esticada seria um verdadeiro desafio. Numa súbita vontade de provar a mim mesma, e à gravação relaxante de como não sou uma desistente, fiz o que ela disse e aguentei uns poucos segundos a tremer. Então ela decidiu que eu devia levantar a perna direita desta vez. Estão a imaginar a cena certo?

Para além disso, tenho uma fantástica habilidade de deslocar os membros do meu corpo momentaneamente sempre que me movimento de uma forma mais complexa. Ainda há dois dias baixei-me para apanhar qualquer coisa do chão e quando me levantei outra vez senti uma dor aguda no meu ombro e os músculos todos presos como se tivesse acabado de me desmontar toda.

Portanto, nisto tudo a grande lição que tenho para dar a todas as pessoas que não se cansam de me sugerir yoga, ginástica, pilates e outras coisas tais: simplesmente não dá.

Com isto não quero dizer que não vou voltar a tentar (sou demasiado teimosa para isso) ou seguir outros conselhos de terapias alternativas para conseguir descobrir algo que efectivamente resulte.

Mas neste momento, deixem-me dizer-vos, a única posição de yoga que consigo fazer é aquela que envolve estar deitada de barriga para cima sem mover um único músculo. Essa existe, certo?!

Só mais uma noite

por AF, em 07.06.17

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Hoje é apenas mais a noite.

Entre conversas cruzadas, chamadas automáticas e choros desesperados aqui estou eu. Sentada numa cadeira de rodas com uma manta nas pernas para não apanhar frio e a questionar o propósito da minha vida enquanto uma jovem de 22 anos que parece estar num corpo de 80.

É só mais uma daquelas noites no hospital. Só mais umas quantas horas de espera porque existem centenas de doentes e apenas dezenas de médicos. Cada um com o seu problema, cada um com as suas dores. Vejo-os entrar e sair, apresentar as senhas, procurarem o gabinete X para a senha daquela cor. Estão todos em constante movimento, até mesmo aqueles que esperam. Se pararem dão em doidos com a quantidade de tempo que têm de aguardar pela noite dentro. Ouço os mesmos nomes serem chamados vezes sem conta mas ninguém que se levante e responda à chamada. Os outros vão-se remexendo, tentando arranjar uma forma de suportarem melhor a dor, gemendo, gritando, chorando.

É esta a realidade aqui dentro. O ar guarda aquele clima de incerteza, de desespero. Cada pessoa que aqui está tem algo diferente embora todos sofram. Ao ver uns quantos entrar de maca praticamente inconscientes sinto-me culpada por aqui estar. Talvez as minhas dores não sejam tão urgentes para justificar a minha presença. Talvez devesse ter ficado em casa e dar a vez a quem realmente precise. Mas eu preciso.

A dor apoderou-se de mim como a neve apodera a Antárctida. Sinto-me como se me esventrassem as pernas com força e me partissem os dedos, um por um muito lentamente para me fazerem sofrer. Não me sentia tão mal há imenso tempo. Pensava que os medicamentos ajudavam, que impediriam que isto acontecesse e tudo correu bem até agora. O corpo luta contra si próprio e aqui não há vencedores. Perguntam-me: "onde é que dói mais?" E eu só quero dizer que é em todo o lado, como se um camião me tivesse passado por cima. Mas eles nunca acreditariam em mim.

À primeira vista estou calma e não pareço nada com alguém que esteja a sofrer. Em tempos, houve uma enfermeira que me julgou por uma drogada. Como é que se explica a alguém saudável que já estou tão habituada às dores que posso chegar ao 10 numa escala de 1 a 10 apenas com um pequeno gemido? Continua a doer. E dói demasiado. Dói em pé, sentada e deitada. Dói com e sem roupa. Dói a todas as horas, minutos e segundos.

Por isso hoje é mais uma daquelas noites. Qualquer dia mudo a minha morada para o hospital Fernando Fonseca, afinal isto já é a minha segunda casa.

Esperança, onde estás tu?

por AF, em 21.05.17

Estou cansada de viver neste corpo. Estou cansada das dores e das imensas horas de sono que nunca me repõem as energias. Cansada de ser "preguiçosa" e de "não ter força de vontade" para conseguir fazer alguma coisa da minha vida. Estou simplesmente cansada.

Já falei com várias pessoas que têm esta doença e hoje se sentem bem e conseguem viver em harmonia com a fibromialgia. Dizem que no início é pior e que se eu comer isto ou fizer aquilo vou melhorar.

Não me culpem por não acreditar mas deixei de ter esperança depois de tantos médicos, tantas injecções, tantos exames, tantos medicamentos. Chega.

As pessoas só querem ouvir as histórias inspiradoras de como alguem pegou no "limão mais amargo e tornou-o em algo parecido com limonada" (sim, é uma referência ao this is us). Não querem saber de quem vê o seu mundo desabar debaixo dos seus pés e de repente se encontra sem saber para onde ir ou o que fazer para o reconstruir.

Eu tenho lido muito sobre doenças crónicas no geral e deixem-me dizer-vos que 80% ou mais dos doentes crónicos se sentem presos num poço bem fundo sem ideias de como sair. Nem tudo o que funciona para um é igual para o outro, pensem nisso.

Não, eu não vou começar a correr não sei quanto tempo por dia só porque o exercício faz bem ao corpo. Sabem quando é que eu corro? Quando vejo o autocarro a chegar e sei que se não o apanhar vou ter que esperar imenso tempo pelo outro e possivelmente chegar atrasada. E mesmo aí, depois de dar um Sprint quase tão rápido como o Ussain Bolt (só que não) me sinto a morrer. Os músculos ressentem-se, os pulmões parece que nunca fizeram um esforço na vida e começo a soar como se tivesse acabado de correr a maratona em cima da ponte. Sinto-me tão quente, tão sufocada. Eu antes não era assim.

Pode parecer-vos que só me queixo da vida e não faço nada para a mudar. Bom, é verdade que passo a vida a reclamar mas se pensam que não me esforço todos os dias para lutar contra isto então estão redondamente enganados.

Sinto-me presa dentro do meu próprio corpo. Quando estou deitada passo vários minutos a olhar para o tecto e a tentar perceber como é que eu cheguei a este ponto. Como é que os meus sonhos morreram comigo tão nova. Como é que as minhas ideais de felicidade foram alteradas e me tornei um fantasma daquilo que em tempos fui?

Uma miúda que se sentia bem, que não tinha dores e podia fazer tudo aquilo que quisesse desde que se esforçasse o suficiente. Mas consigo lembrar-me de que nunca dei valor ao que tinha.

Hoje ainda se podem virar para mim e dizer-me que nada está perdido, que eu sou ainda muito nova e posso dar a volta à minha doença e vencer. Ser alguém, ser saudável e ultrapassar a dor. Ainda posso cumprir os meus objectivos, tornar os sonhos realidade. É tão fácil falar... e honestamente eu gostava de acreditar.

Entretanto vou vivendo os meus dias a fingir que tudo está bem. Vou trabalhar quando tiver que trabalhar, descansar sempre que puder e procrastinar na maioria das vezes como a verdadeira Filipa que sou.

E no meio disto tudo os demónios vão tentando derrubar-me de todas as formas que puderem. E eu vou tentar. Não, eu vou conseguir vencer.

Flash, a preguiça.

por AF, em 20.04.17

Chamem-me Flash.

Não, não é por eu ser rápida como o super herói. Pensem no animal. Mais especificamente uma personagem de um filme vencedor de óscar e adorada por toda a gente. Exacto. Flash, a preguiça. Mais vale adoptar já esta alcunha uma vez que toda a gente gosta de me chamar preguiçosa e de fazer ocasionais referências à icónica personagem do Zootrópolis.

Confesso que nunca fui uma daquelas pessoas super activas que nunca consegue estar sentada sem fazer nada. Mesmo quando era criança e tinha uma grande quantidade de energia para brincar continuava a ter os meus momentos calmos para carregar as baterias.

Agora considerem o seguinte: as minhas baterias ficaram viciadas portanto hoje em dia preciso de parar muitas mais vezes para restabelecer as minhas energias e poder continuar a viver a minha vida normalmente. Não é que eu não queira correr ou fazer outro tipo de exercícios. São tantas as vezes em que a ideia de ir para o parque gastar energia e ser mais saudável me passa pela cabeça. De dançar ou de me envolver em algum tipo de aula que me pudesse ajudar. Yoga, pilates, natação, hidroginástica... O problema é que elas não passam disso, de ideias.

O simples facto de subir escadas ou andar uns quantos metros do autocarro até casa deixa-me não só cansada como dorida e incapaz de passar da ideia à acção. Por isso sim, podem chamar-me preguiçosa e dizer que eu só gosto de dormir e de estar deitada sem fazer nada. Mas ao dizerem que sou o suprassumo da preguiçosa tenham em consideração o difícil que é para mim, por exemplo: pegar em coisas pesadas, manter-me constantemente activa durante o dia, andar longas distâncias, mover-me com rapidez ao realizar certas actividades, fazer qualquer tipo de esforço físico. Tentem pôr-se no meu lugar. Não procuro uma desculpa para ficar quieta ou uma razão que justifique todas as vezes em que pura e simplesmente não me apetecer fazer algo. Como já vos disse anteriormente eu dava tudo para poder ter a força necessária para ser um ser humano normal.

Sim, normal. Com isto tudo eu não me consigo sentir minimamente normal. Quando estou em casa e quero fazer simples tarefas que em tempos eram facilímas e me vejo a falhar completamente ou a ter que descansar logo após as mesmas... sinto-me uma verdadeira anormal. Quando me convidam para sair e eu digo sim porque realmente quero aproveitar a maravilhosa década dos 20 mas depois quando chega a altura e eu me vejo sem forças ou cheia de dores... Aí também me sinto anormal.

Sinto-me anormal quando me dizem para ser mais rápida e eu não consigo, quando acham que sou um tanto retardada ou maluca por não perceber algo tão simples (nevoeiro mental, sabem), quando tento e não consigo. Quando me levanto de manhã, quando me deito à noite, quando saio à rua, quando trabalho, quando me olho no espelho. Nunca mais me senti normal. Talvez seja por isso que aceito sem questionar o rótulo de preguiçosa. Mais vale ser preguiçosa e normal do que incapaz e anormal.

Flash, a preguiça. Só existem duas diferenças entre mim e o Flash. Enquanto ele é espetacularmente rápido a conduzir o seu carro topo de gama, eu fico deitada a fazer todo o tipo de coisas que costumo fazer. Ou seja, nada.

A segunda diferença? O Flash tem piada.

"Está tudo na tua cabeça"

por AF, em 15.03.17

Uma das grandes razões que me levaram a criar este blog é o facto de que tanto a fibromialgia como outras doenças crónicas englobarem um vasto ramo de distúrbios mentais.

Sei que ao falar deles não vou ser só compreendida por doentes crónicos mas também por pessoas que enfrentam todos os dias os desafios impostos por certos monstros que atacam as suas mentes. É aqui que me sinto obrigada a sublinhar que lá porque as doenças, síndromes, distúrbios ou condições existentes são invisíveis não significa que estas pessoas não sofram com eles. É preciso colocar de parte todos os preconceitos e ideias pré-concebidas de que ter uma depressão (por exemplo) é "modinha" ou apenas uma chamada de atenção e começar a entender verdadeiramente que o cérebro é um órgão como qualquer outro no nosso corpo e também fica doente.

Prosseguindo, deixem-me então dizer-vos que ter fibromialgia também têm o seu quê de distúrbio mental e daí seja extremamente controverso aceitá-la ou entendê-la como uma verdadeira doença física. Por exemplo, um dos grandes factores que contribuem para o agravamento das minhas dores é o meu estado psíquico. Se eu estiver mais stressada, triste ou até irritada posso ter a certeza de que o meu corpo se vai começar a queixar. Por outro lado, um estado de espírito mais zen e despreocupado leva-me a sentir que posso fazer tudo o que me apetecer. Mas não se deixem enganar; lá porque o meu humor tem influência na quantidade de dores que sinto, isto não quer dizer minimamente que a fibromialgia só está "na minha cabeça" e que é uma invenção minha. Muitas são as vezes em que estou bastante bem humorada e optimista e continuo a sentir-me fisicamente derrotada.

É aqui que é preciso quebrar o estigma de que pensamentos positivos resolvem qualquer coisa. Isto não é verdade. O que é um facto é que uma atitude positiva em relação às situações que enfrentamos no dia a dia nos vai ajudar a motivar para que não desistamos de lutar mas é só isso: ajudar. Não vai resolver os nossos problemas como que por magia apenas porque nós decidimos ser positivos. Não é assim que o corpo humano funciona.

Não me interpretem mal, eu não sou psicóloga nem nada do género mas acho que tenho experiência suficiente neste campo para saber uma coisa ou outra do que resulta e do que é mito.

Mais uma vez apetece-me pegar naquela tão adorada (pois, claro) frase que ouço imensas vezes: está tudo na tua cabeça.

Vamos supor o seguinte: se eu atropelar alguém e essa pessoa ficar no chão a contorcer-se de dores mas não aparentar qualquer dano físico à primeira vista também lhe deverei dizer que está tudo na cabeça dela? Não, certo?! Então porque raio é que tem que ser assim comigo?

O ar que respiramos também não é visível e isso não significa que ele não exista. Por isso, vamos tentar pôr de lado esta ignorância imposta pela sociedade e perceber que nem tudo o que é invisível é um acto de imaginação. Aposto que se o Dr. House fosse real concordaria comigo nesta parte.

A ansiedade, depressão, paranóia, bipolaridade, distúrbio obsessivo-compulsivo, mania, etc (desculpem não me lembro de todos assim de repente) também não são invisíveis . É o cérebro que está doente e desregulado e precisa de ajuda.

Afinal, qual é a piada de se fingir uma doença quando podemos aproveitar melhor a vida sendo saudáveis?

Não sei como é convosco mas aqui entre nós eu adorava ter a minha vida de volta. Mas esse é daqueles desejos que só está na minha cabeça e é algo que eu gostava de poder mudar.

O amor e a fibromialgia

por AF, em 21.01.17

Conhecer pessoas novas com a intenção de namorar nunca foi fácil para mim. Não fiquem tão chocados, eu sei que sou demasiado fabulosa para os homens! Não. Na verdade eu sempre fui aquele tipo de pessoa que tem dificuldades em sair da casca. Sou introvertida e tenho uma enorme falta de coragem para tentar conhecer alguém por minha livre e espontânea vontade. Em suma, tenho medo da rejeição.

E o que é que isto tem a ver com a fibromialgia? Chegou-me agora o pensamento de como será explicar a alguém novo e por quem tenha uma possível atracção que eu, uma miúda de 22 anos, sofre de uma doença crónica? Assim muito rapidamente consigo lembrar-me de várias razões para não contar a ninguém o meu problema. Talvez me poderão chamar fraca, achar que isto é doença de velha, acharem um fardo terem de lidar com alguém assim, pensar que invento as dores por atenção. Nada disto é verdade mas acontece que existem pessoas que podem eventualmente pensar desta forma. Com a falta de conhecimento sobre a fibromialgia vem a ignorância em relação a lidar com a mesma tal como em tantas outras doenças. 

Tenho completa noção de que é algo que eu não tenho qualquer obrigação de contar porque não me define nem muda em forma alguma aquilo que sou. No entanto, se formos a ver as coisas noutra perspectiva imagino que terei de explicar o porquê de não aceitar fazer diversas actividades ditas normais como ir num encontro a um sítio qualquer. É um facto que nem sempre isto acontecem porém existirá sempre aquela saída que me fará andar muito ou exigirá demasiado de mim e cuja resposta será inevitavelmente não.

É aqui que me apercebo que talvez seja mais fácil ajustar-me a uma vida solitária do que andar por aí a procurar amor onde não haverá paciência. Se nem eu tenho, como terão os outros?!

Positivamente falando acredito que toda a gente tem o direito a sentir-se amado pelo menos uma vez na vida. Também acredito que existem pessoas que não se importam que alguém tenha a doença A, B ou C. Não deixam de ser seres humanos com sentimentos.

Falando por mim sei que consigo manter uma vida minimamente normal já que nem todos os dias dou por mim incapacitada pelas minhas dores e sinto-me feliz por isso. No entanto, sei igualmente que há tantas pessoas neste mundo que se vêem isoladas por não serem aceites da forma que são. Das doenças que têm, dos problemas que enfrentam.

Ao pensar nesta história toda de encontros e procura de amor vejo-me obrigada a apelar um pouco à consciência de todos aqueles que poderão ler as minhas palavras. Todas as pessoas, tenham elas que doença tiverem, enfrentem os desafios que enfrentarem... todas têm direito à felicidade. E se há algo que a fibromialgia me ensinou, é que toda a gente tem uma história diferente e isso significa que seja na próxima página ou no próximo capítulo, a felicidade tem o seu lugar. E se esta procura de amor não resultar com a pessoa que se acabou de conhecer, resultará mais tarde com outro alguém. Nós podemos não ter colheres suficientes mas quando chegar aquela pessoa que tem colheres suficientes pelos dois, então essa é para manter.

Até lá, mantenham-se fabulosos. Eu sei que vocês são.

Vida social VS Fibromialgia

por AF, em 08.01.17

Quase todas as pessoas que conheço me dizem para sair mais e me divertir porque estou sempre em casa fechada. Mal elas sabem a razão que me leva a tal.

Lembram-se da teoria das colheres? Pois bem, se eu eventualmente decidir sair e passar algum tempo com amigos ou ir passear a qualquer lado, as minhas colheres para aquele dia vão gastar-se muito mais rapidamente do que num dia normal.

No momento de tomar a (tão importante) decisão de tentar ser uma jovem normal nos seus loucos anos 20, tenho que me lembrar de inúmeros factores. Estará frio? Terei que andar muito? Como irei até lá? Quanto tempo demorará? Como voltarei? Será que vale a pena ficar cheia de dores só para uma ou duas horas de diversão?

Sim, sei o que estão a pensar e têm toda a razão. A verdade é que não posso perder a minha vida social ou a minha felicidade por ter esta doença e devia-me esforçar para fazer certas coisas mais difíceis que me possam ajudar a contornar a fibromialgia. O problema é que quanto mais tento fazer e por mais que me esforce as coisas não mudam. Ela está lá sempre.

Isto não invalida o facto de eu, de vez em quando, decidir realmente que quero sair e divertir-me. Acontece é que no fim acabo por ter aquela pontinha de arrependimento quando me deito e sinto as dores a percorrer o meu corpo todo. Por isso, sim. É muito mais fácil ficar em casa descansada e evitar actividades que me possam magoar.

Quando me convidam para isto e para aquilo e eu nego, não é por uma questão de não querer estar com as pessoas ou de ser anti-social. É tudo para salvaguardar o meu bem estar porque eu sei que se o fizer me vou sentir muito pior.

Gostava de poder ser diferente. Mas não sou. A fibromialgia escolheu-me e veio para ficar.

Uma bomba chamada cortisona

por AF, em 05.01.17

Não, desculpem. Preciso de corrigir já este erro para o caso de algum médico ler e ficar com a sensação de que sou ignorante.

Portanto, passo a explicar que o nome verdadeiro desta bomba é corticóide. Qualquer ideia em contrário é fruto de pura ignorância (citando um certo reumatologista).

A minha história com esta (nada) maravilhosa droga "curandeira" começa muito antes de eu ter noção das consequências que sofreria após um tempo a tomá-la. A verdade é que nenhum médico que alguma vez ma prescreveu se deu ao trabalho de me explicar os efeitos secundários. Afinal, é muito mais fácil espetar uma agulha na veia e enfiar para lá cortisona. Ups, desculpem senhores doutores. Erro meu.

A minha teoria é (e corrijam-me se estiver errada) que quando eles não sabem bem o que se passa atiram logo a bomba para cortar o mal pela raiz. Só que a raiz cresce outra vez e agora está infectada.

Por minha experiência própria, ao tomar o santo corticóide consegui engordar logo no espaço de um mês pelo menos 12 kg. Se este número não é muito para vocês então não sei o que é. Isto já para não falar do fatídico dia em que levei 100 mg de uma vez só e inchei que nem um peixe-balão. Querem uma mudança de visual instantânea? Então tomem cortisona! Acho que vou enviar esta brilhante ideia de marketing para uma empresa qualquer e assim ainda consigo lucrar com a minha própria desgraça.

Mas não é só visualmente que ficamos afectados. Os efeitos secundários são tantos que o medicamento consegue fazer pior aos pacientes do que os ajudar minimamente. Acham que estou a brincar?

«Aumento de apetite e peso, portanto engorda

Retenção de liquido

Depósitos de gordura nos seios, rosto, em cima das costas e na barriga

Retenção de água e de sal, causando pernas inchadas

Pressão arterial alta (hipertensão)

Diabetes porque aumenta os níveis de açúcar no sangue

Marcas pretas e azuis na pele

Cicatrização de lesões mais lentas

Em mulheres pode causar atraso do ciclo menstrual

Osteoporose

Problemas de visão, como catarata nos olhos

Doenças de pele como acne

Fraqueza muscular

Afinamento da pele

Aumento das chances de desenvolver infecções

Úlceras estomacais

Aumento da transpiração

Náusea

Mudanças de humor e insónia

Problemas psicológicos como depressão

Crise adrenal

Eritema, vermelhidão, urticária e coceira por exposição prolongada ao sol

Redução do número de linfócitos no sangue

Altas doses de cortisona podem causar danos ao fígado, porque eles causam hepatotoxicidade

Herpes simples, se não está associado com outros medicamentos sob supervisão médica»*

Pois é meus caros, não é nada bonito mas foram algumas destas consequências que eu tive de suportar durante meses. Para quem acha que engordei apenas porque não fecho a boca e só como porcarias então tenho uma óptima notícia para vocês: não foi!

E mesmo após tantos meses sem a tomar ainda não voltei ao normal. O pior de tudo é saber que nem uma única vez me tiraram as dores. Nisto devo agradecer aos santos calmantes e relaxantes musculares que me davam, nas constantes viagens às urgências do hospital, e diziam que era tudo obra milagrosa da cortisona. Hilariante.

Até os mandava para um sítio, mas como sou educada vou-me calar e continuar fabulosa. Sempre.

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* Nota: qualquer informação adicional (tal como a lista mencionada acima) sobre os efeitos secundários dos corticóides pode ser encontrada aqui.

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