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Cronicamente Fabulosa

A descoberta do desconhecido na companhia da fibromialgia

Cronicamente Fabulosa

A descoberta do desconhecido na companhia da fibromialgia

"Mas tu não pareces doente"

por AF, em 03.01.17

Ah, hoje venho falar de uma das minhas reacções preferidas de sempre quando conto a alguém que estou doente. Nem preciso de dizer o que é que eu tenho para ouvir logo aquela maravilhosa resposta. "Mas tu não pareces doente."

Portanto, para parecer doente teria que estar completamente desfigurada, cheia de hematomas ou feridas e sem sequer sair da cama? Não preciso de parecer doente para o estar e não acho que seja assim tão complicado entender isso.

Eu não preciso de parecer doente quando todos os dias de manhã continuo a ter dificuldades em levantar-me com as dores no corpo e rigidez muscular. Não preciso de parecer doente quando me custa imenso subir e descer escadas. Não preciso de parecer doente quanto tento pegar em coisas que nem são assim tão pesadas e as forças me faltam. Não preciso da aparência quando a doença está lá.

Por isso é que lhe chamo a doença silenciosa. A fibromialgia não é uma brincadeira mesmo que não se saiba muito sobre ela. Eu não acordei simplesmente um dia e decidi que queria uma condição destas para o resto da minha vida sem poder fazer nada para que ela desapareça.

Sei que não sou a única a pensar assim no que toca a doenças invisíveis. Aposto que na minha geração e não só, existem milhares de pessoas que sofrem em silêncio com depressões, ansiedade e outros tantos distúrbios que chegam a ser incapacitantes. E também tenho a certeza de que se disserem a alguém o que têm a resposta será igualmente: "Mas tu não pareces doente".

A sociedade tem que parar de pensar em aparências e "olhar" mais para a parte metafísica. Esse pensamento retrógrado de que é necessário parecer doente para se estar fez com que duvidassem de mim inúmeras vezes e adiassem sem qualquer razão o meu diagnóstico.

Demorou exactamente um ano e três meses para me dizerem algo que eu já estava à espera de ouvir. Não, nunca me auto diagnostiquei nem quis armar-me em médica mas quando todos os profissionais de saúde à minha volta me falam que isso é uma possibilidade sem terem o poder de dar o diagnóstico, então uma pessoa começa a acreditar.

Também gostava de acreditar que lá no fundo as incontáveis vezes que ouvi a palavra somatização soar no meu ouvido eram apenas preocupações disfarçadas de desdém. Quando a pessoa que podia encaminhar-me para todos os sítios certos, para exames necessários, ajudas certas e tudo mais sempre duvidou de mim. Não, não era somatização e, não, eu também não pareço doente.

Mas estou e estarei para o resto da minha vida.

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