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Cronicamente Fabulosa

Tenho fibromialgia, mas também sou fabulosa e esta é a grande aventura que é a minha vida.

Cronicamente Fabulosa

Tenho fibromialgia, mas também sou fabulosa e esta é a grande aventura que é a minha vida.

O meu lugar aqui.

por AF, em 26.06.19

Sempre vivi numa espécie de bolha.

Cresci como uma criança tímida que detestava fazer avaliação de educação física à frente da turma com medo de falhar. Nunca tive facilidade em fazer amigos e a melhor altura do meu dia é quando estou sozinha e não preciso de falar ou ouvir ninguém. Resumindo, sou uma pessoa introvertida.

É claro que isso não é um enorme problema nem tem qualquer relação com a fibromialgia assim à primeira vista. Existem milhões de pessoas neste mundo que sentem as mesmas dificuldades em socializar e continuam a viver a vida delas felizes e contentes tentando alcançar os seus objectivos e a realizar os seus sonhos. Não é um problema, são apenas personalidades.

Mas as coisas mudam quando para além de introvertidos nos aparece uma pergunta na cabeça que chega tão rápido e doloroso como uma chapada na cara. O que é que eu estou a fazer aqui? Qual é o meu lugar aqui?

Por norma quando nós nascemos temos ali uns aninhos agradáveis em que não fazemos absolutamente nada da vida para além de comer, dormir e brincar. Somos felizes sem razão, apenas porque sim. Não questionamos o sentido da vida, não pensamos no trabalho que vamos ter no futuro ou nas responsabilidades que nos esperam. Somos inocentes e puros.

Depois chega ali por volta da altura do sétimo ou oitavo ano em que finalmente nos começamos a aperceber que os adultos esperam que nós - miúdos de treze e catorze anos - tenham alguma ideia do que "querem ser quando forem grandes" de uma forma mais realista. Passamos o nono ano a estudar para uns exames que todos (sem excepção) odiamos ter que fazer e quando, no fim disso tudo, tratamos dos papéis e matrículas para o décimo ano confrontam-nos com uma questão importante: o que é que vamos fazer a seguir?

Vamos para o ensino regular ou vamos tentar o profissional? Queremos línguas e humanidades, economia ou ciências? Queremos ser médicos, políticos, atletas, biólogos? Queremos o quê?

É aí que a coisa complica porque sejamos sinceros: quase nenhum miúdo nos seus quinze anos sabe o que quer da vida. Aquilo que sabemos é que para nós o ideal era sermos algo como estrelas de cinema, verdadeiros rockstars ou artistas que vão mudar o mundo. Queremos voar. Queremos ser reconhecidos, ser alguém.

Lá acabamos por escolher aquilo que achamos mais realista ou então somos corajosos e seguimos o nosso coração na esperança que façamos da nossa paixão um trabalho no futuro. 

O que importa é que a primeira vez que fazemos a primeira escolha importante do resto das nossas vidas somos uns adolescentes imaturos e completamente perdidos.

Mas tudo bem, vamos à luta. É altura do secundário - literalmente a pior altura da minha vida - e começamos a estudar coisas que se calhar não nos interessam mesmo para nada e pensamos num momento ou outro se escolhemos bem. Enfim, já está, já está, vamos lá acabar o secundário e despachar a coisa.

Acaba a escola. Dezoito anos e está na altura de realmente nos atirarmos aos lobos. Para os mais sortudos é altura da faculdade e da vida louca (ou não) e para outros é hora de nos fazermos de crescidos e começar a trabalhar. Sem curso e experiência vemo-nos obrigados a aceitar trabalhos que não nos interessam para nada, que nos exploram e nos pagam tão mal que quase choramos ao ver o ordenado no final do mês.

Mas não há problema, nós conseguimos. Isto é só para ganhar experiência e em breve vamos conseguir crescer numa empresa e encontrar algo que gostamos de fazer ou então vamos só juntar uns trocos para tirar a nossa licenciatura. Parece simples, não há nada que possa falhar num plano em que é só 1: trabalhar ou estudar, 2: colher os louros. Só que não.

A vida complica-se. A universidade é mais difícil do que parecia, o trabalho leva-nos ao limite de nos tornarmos psicopatas e temos que lidar com tudo com a maior maturidade possível porque já não somos crianças e isso é esperado de nós. As coisas começam a correr mal. Não conseguimos estudar ou ter realmente boas notas. Não conseguimos aturar mais tretas de clientes que descarregam os problemas todos da vida deles em nós. Não conseguimos lidar com a enorme desilusão de estarmos a ser esmagados pela sociedade e pela realidade.

O que é que acontece quando percebemos que nada disto é o que queremos?

Eu perdi o meu lugar. Na verdade nunca sei se alguma vez o tive ou soube onde realmente pertencia. Quando andava no oitavo ano achava que tinha a minha vida decidida e estruturada mas estava enganada porque a vida seguiu um rumo que eu não esperava e não queria. E quando de repente vi o tempo estava a passar e os meus sonhos pareciam cada vez mais longe percebi que o mundo real era bem mais frio e duro do que eu achava. Afinal só estamos aqui para ser mais um número. Para viver, trabalhar até o estado querer, descontar dinheiro que nunca vamos rever, ter direito a uma reforma miserável e morrer doentes, infelizes e acima de tudo sem nunca termos realizado o que queríamos.

Este pensamento magoou-me e assombrou-me durante tanto tempo que ainda hoje, que o tento contrariar ao máximo, me faz duvidar se a vida vale verdadeiramente a pena. Por isso senti-me perdida. Sinto-me perdida.

O pior pesadelo de um ser humano é ser confrontado com uma realidade que implica viver na mediocridade e, talvez, uma infelicidade constante? Vá, até posso estar a ser dramática mas eu não quero de todo entregar-me àquilo a que todos se entregam: trabalhar para pagar as contas no final do mês e nada mais.

Se estamos todos aqui para isto qual é o verdadeiro sentido de viver? Porque é que passamos uns 60 anos da nossa vida a criar dinheiro para outras pessoas usarem e abusarem quando nós não temos tempo nem sequer para explorar coisas novas, encontrar interesses que nos façam crescer como seres humanos. Porque é que vivemos durante tempo para morrermos insatisfeitos?

Esta é a dúvida que me percebe há muitos anos e que me faz ter vontade de desistir e nem sequer tentar ser mais uma prisioneira de uma sociedade que não foi feita para pessoas como eu. Não me acho especial, nem nada. Acho apenas que a vida não é para toda gente. Tal como nem todos nasceram para ser guitarristas, por exemplo.

Mas não se assustem. Ultimamente tenho tentado combater este meu conflito interior ao resolver os meus problemas pessoais e acima de tudo descobrir quem eu sou. Eu nunca soube quem era. Sempre soube quem eu não era e o que eu não queria. Sempre conheci a dor, a desilusão e a solidão e no meio disto tudo nunca consegui quebrar o ciclo e ver para lá do mal, ver quem eu realmente sou e o que represento.

Nunca consegui até agora.

O caminho tem sido difícil. Nem vos consigo explicar como tem sido complicado mudar completamente a minha mentalidade e começar a acreditar em coisas novas e, no fundo, a ter esperança de que há uma razão maior para eu estar aqui. Ainda não sei qual é mas tenho a certeza de que é importante continuar a lutar contra a depressão e contra a fibromialgia para me descobrir porque eu sei que sou mais do que distúrbios ou doenças. Eu sou mais que isso. Eu tenho qualidades e tenho potencial para ser mais. Para ser especial.

Ainda tenho muito medo de tantas coisas. Tenho medo da rejeição, da desilusão. Tenho medo de não ser boa o suficiente e de ser uma pessoa dispensável para os outros. Tenho medo de não conseguir sair do posso e de estar a esforçar-me para chegar um dia e perceber que nada vale a pena. Tenho medo que o corpo me falhe. Tenho medo que a cabeça não dê para mais. Tenho medo de não ter a inteligência ou as capacidades necessárias. Tenho medo de me resignar a ser infeliz num trabalho que não gosto. Tenho medo de voltar ao que era antes.

Mas mesmo com todo esse medo eu não deixo de seguir em frente. Estou a continuar e a esforçar-me como nunca me esforcei antes para navegar por mares desconhecidos e ver para lá do meu medo. De que me vale estar aqui se não vou tentar explorar e se vou ficar sempre presa a uma ilha de revolta e infelicidade? Eu vou navegar e vou descobrir. Talvez não seja uma descoberta tão importante como o caminho marítimo para a Índia mas vai ser mais significativa para mim e vai-me permitir alcançar muito mais.

Ainda não sei o que é ou onde é. Ainda não sei quem sou nem do que sou capaz.

Mas acreditem em mim: eu vou descobrir.

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